Quando comprei o livro, apressei-me a lê-lo, porque parecia tão pequenino que era obra de um instante. De repente, a Mariana (aluna do 10.º ano da Escola Tomaz Pelayo) começou a ler a história e eu aproveitei para ouvi-la e acompanhar visualmente as imagens que iam surgindo no projetor, tentando cruzar os dois textos e as linguagens comunicacionais. À medida que ia crescendo a história da “nuvem”, muitas leituras se cruzaram na minha imaginação (e quantos os escritores que revisitei!…) até desaguar na minha infância. Efetivamente, esta história parece construída de uma maneira simples, mas o trabalho que está por detrás desta aparente simplicidade é inimaginável. Lembrando Saint-Exupéry pelas mensagens que pretende comunicar e pela convivência com os elementos do planeta, independentemente, da forma que essas nuvens foram assumindo “nuvens de todas as cores (brancas ou vermelhas, lilases ou acastanhadas, pretas ou azuladas) e também de todos os feitios …” (p.9), sem dúvida, que houve uma especial – a Maria do Céu – que irá ser a personagem central da obra. A Maria do Céu representa a criança que há em cada um de nós: “A nossa pequena nuvem queria ser uma eterna criança sem ter que ir à escola das nuvens” (p.12) – ela apenas lutava pela felicidade. Mas foi crescendo, como acontece aos humanos, e transformou-se num rio, lembrando-se do céu com tristeza. A verdade é que a sua história foi mais longa e chegou a comunicar com o mar, evocando a história de Portugal e o papel dos nossos navegadores até descobrirem o horizonte, tal como escreveu Pessoa: ”Ó mar anterior a nós, teus medos/ Tinham coral e praias e arvoredos/ (…) ‘Splendia sobre as naus da iniciação.” (Horizonte, Mensagem). A “nuvem” está, pois, associada ao mistério e a sua transformação em água adensa o caráter mítico do amor oculto e simultaneamente desenha a errância do seu curso, suscitando em cada leitor um desejo de regresso às fontes, para reencontro de encantamento e alegria, como tantas histórias que nos contaram. A água é um elemento essencial que Sophia de Mello cantou muito bem: “Irei até às fontes onde mora/ A plenitude, o límpido esplendor/ Que me foi prometido em cada hora, / E na face incompleta do amor.” (As fontes, Poesia I), sempre associado às fontes e ao mar, considerando este último como seu destino, indo para além da vida. Esta abstração simbólica percorre a escrita deste livro, não impedindo, no entanto, que o rio chegue à foz e que o fio narrativo se afaste do lugar concreto nomeado – o rio Ave e a sua transformação.

Uma vez mais, retomando a história e a imagem de um Menino que, saudosamente, mirava o rio enegrecido e o contrapunha ao do passado, o narrador alerta para o desequilíbrio ecológico e as ameaças cometidas pelo ser humano. Uma voz de criança a clamar por Maria do Céu: “Era uma nuvem criança, redonda e branquinha, com os cabelos soltos e os olhos doces” (p.32). O mais singular da história é o segredo “se um dia, por mero acaso, olhares para o céu e vires uma nuvem a levar ao colo um Menino, não te esqueças que há um rio à sua espera que continua a chorar…” (p.33) que foi revelado e fechou o livro. Curiosamente, a Dedicatória contempla três “nuvens” que o autor confessa “sem as quais o meu céu seria monotonamente azul” e acaba referindo também o céu e a nuvem; pode dizer-se que se trata de uma obra circular.

Mais do que a história, aparentemente, simples e harmoniosa, as palavras sugerem outras leituras mais profundas, podendo a obra ser considerada uma alegoria, como referiu a apresentadora e como tem sido referido ao longo deste texto. Poder-se-á até afirmar que é uma narrativa alegórico-fantástica, pois é um livro em que há dois caminhos que se cruzam e reforçam: um proveniente da palavra e outro nascido da imagem, contribuindo ambos para a elevação do ser-obra. Uma dimensão autobiográfica atravessa o discurso e as imagens contribuem ora para desocultar a mensagem, ora para visualizar o abstracionismo que a alegoria e metáfora encerram.

Pode afirmar-se também que a nuvem é uma metáfora da vida, na medida em que traduz as inquietações e os desassossegos dos humanos: ela quer libertar-se, ela sofre; precisa de amigos para comunicar e pode ser passageira. A Natureza, essa, necessita de ajuda para se libertar do caos em que está mergulhada.

Um pequeno grande livro que nos deixa a pensar…

                                                                                                        Júlia Serra