Prémio Nacional de Poesia Fernão Magalhães Gonçalves

O título da obra Poesia, amoras & presunto resulta de uma fusão do imaginário e do real, reportando-nos, através do concretismo, aos tempos da infância e aos lugares gravados na memória. O sujeito poético, no último poema, que deu título à capa, interroga: “Menina:  –gostas de amoras? / – não provei mas vou provar…/ – diz a teu pai que namoras/ e com quem pensas casar.” Quem não se lembra destes versos ligados às amoras? Fruto silvestre, vermelho escuro que pintava a boca e os dentes e servia para colorir os brinquedos improvisados da infância. Em O regresso às origens, João Miranda, evocando as raízes do Barroso – mais concretamente da sua terra natal, Codeçoso – explica: “O poeta[1] nasceu na pitoresca aldeia de Codeçoso, pintada na beleza do planalto barrosão, entre a importante serra do Larouco e o granítico Coto Ferronho. Uma aldeia que lhe recorda a sua longínqua infância, cheia das saborosas e omnipresentes amoras que polvilham a paisagem de cor e onde o presunto é rei…” (p. 17). Explicado o saboroso título, passemos às impressões da leitura.

Trata-se de um livro que foi lido de um só fôlego, pelas sensações que nos despertava, mas, na realidade, estes poemas têm de ser relidos, em jeito de calendarização, para serem saboreados como os ingredientes que acompanham a poesia “as amoras e o presunto”. A profusão de sentimentos é tal que nos transporta para muitas outras passagens literárias e dá azo a confrontar estas palavras e estes versos com os clássicos da literatura. Não há dúvida que Barroso da Fonte seguiu os conselhos de Régio presentes na carta final e adaptou-os à sua escrita que se considera exigente e “sem formalismos requintados e ocos”. São poemas autobiográficos, em que desoculta os seus sentimentos e receios para nos mostrar como a sua vida serviu para a criação poética, o que não exclui, certamente, algum trabalho ficcional, de simulação. É exímio na construção dos sonetos, quer a nível formal quer do conteúdo, revelando ao leitor os seus sentimentos, a natureza do homem, a efemeridade da vida, a terra natal e a origem dos seus versos. O sujeito lírico apresenta-se como uma alma sofredora – aliás, esta ideia de sofrimento atravessa a obra – cheia de saudades, de inquietações e consciente de que a morte será inevitável. O poema Quando eu morrer é um dos poemas mais belos, pelo despojamento do ser: “Quando eu morrer não quero fingimentos. / Podeis cantar, bailar à desgarrada,/ (…) “E sobre a terra que me amortalhou/ Escrevei esta frase: Aqui descansa/ Quem pela vida nunca descansou”.(p. 28). Esta evocação da morte leva-nos até Antero de Quental, José Régio e Miguel Torga.

Não faltam também palavras meigas e patrióticas ligadas ao amor: da pátria, da língua portuguesa, da mulher amada, dos familiares e até das paragens que, outrora, foram palco de guerra e, hoje, geram saudade. A passagem por Angola perpassa toda a antologia e salpica aqui e ali as vivências do presente, nunca esquecendo o cenário de guerra misturado com os rituais do lugar. No poema Esta noite cheira a funeral, o poeta aproveita para incluir no seu léxico termos como banzé, cubata, batuques e merengues, e, simultaneamente, divulga os rituais da morte em que o cheiro do corpo e a música se fundem com a cor da terra. Cenários gravados na memória do sujeito e, aqui, desnudados – Tenho pena de ti – um poema de amor e ódio em relação a si e ao outro que despreza a mulher pela cor: “Fazes-me odiar a existência/ porque eu queria ver-te na minha sombra/ e não te encontro/ porque tu és preta/ e eu sou branco” (p. 72). Estas dicotomias do branco/preto, mulher/homem, colonizador/colonizado estão muito associadas ao tempo de guerrilha e à presença dos portugueses em Angola. Lembrando Pepetela[2] em A Parábola do Cágado Velho (PCV), o desejo de renovação de Ulume (um velho) obriga-o a lutar para conquistar Munakazi, mas a imagem perturbadora do rebentamento da granada perturba-o. Esta atração do homem pela mulher não se processa nos moldes tradicionais, porque Munakazi quer impor os seus direitos: “As mulheres são iguais aos homens, mas só que agora esse pensamento já não servia de fortaleza…” (PCV, p. 63). Num outro passo da obra, o narrador, na voz de Munakazi, acrescenta: “Só que o meu homem só me vai ter a mim e eu a ele, é isso. Aprendi, a mulher deve ter os mesmos direitos do homem (PCV, p. 61). E nesta tentativa de afirmação do feminino, Munakazi revela que foi o soldado branco que lhe ensinou a lutar pelos seus direitos, o que demonstra o aspeto positivo da colonização. A mulher negra e a prostituta – a que o sujeito poético alude “seduzindo os desejos de tantos/que te compram barato.”(p. 76) –, sendo símbolo da sexualidade, eram facilmente associadas ao primitivismo, tornando-as mais vulneráveis e reféns dos desejos do homem; mas há neste livro poemas em que este conhecimento e contacto com o outro se traduz em humanismo e pena.

São tantas as impressões gravadas ao longo do tempo e do espaço (mais ou menos distantes) que só assim se compreende a dificuldade do sujeito poético em incluir a vida nos seus livros: “Minha vida é do tamanho do mundo/ longa e distante/ (…) Não cabe nos livros de sempre/ porque transcende os espaços possíveis” (p. 147). Para além das temáticas acima referidas, nesta caligrafia do tempo inscrevem-se ainda personagens históricas, com quem o sujeito se identifica – Fui menino = Afonso Henriques (p. 191) e cuja percurso existencial se desenvolveu na cidade berço, alusões à terra transmontana, louvores à Língua Portuguesa e à Pátria, homenagem aos poetas – Poetas da minha Terra (p. 195) e há também muitas quadras populares que reforçam os laços do poeta às suas raízes, permitindo opor a cidade ao campo, particularmente a cidade de Lisboa e o espaço rural. Esta oposição cidade/campo lembra-nos Sá de Miranda pela moldura do carácter que a espacialidade desenha: no campo há integridade, na cidade ambição.

São vários os poemas em que o sujeito poético aproveita para prestar homenagem aos seus conterrâneos Miguel Torga e Fernão Magalhães Gonçalves, o poeta que deu origem a este prémio; também as fragas e a paisagem transmontana com o seu cheiro silvestre e vento agreste não foram esquecidas.

Diríamos que avultam, como tópicos essenciais, a reflexão sobre o tempo com os acontecimentos inerentes e a consciência da morte que se ergue como uma sombra do destino e que o poeta nunca renegou. No poema Quero dormir neste chão é visível essa aceitação do fim, lembrando a ataraxia de Ricardo Reis. “Foi neste chão sagrado que nasci,/ num lar de dez irmãos que Deus me deu:/ todos correram mundo, como eu, / que sempre desejei morrer aqui. (…) Venha ela na hora em que vier, devolver-lhe-ei o que puder:/ – o que tive e o que sou, é tudo dela.”(p. 192) Este fim tão sentido e de entrega total à terra com quem pretendeu noivar – “hei de noivar contigo, ó minha Terra”(p. 31) – e Ao Rio Rabagão com quem quis casar – “Quero casar contigo” (p. 35) – anuncia a união simbólica da terra com a água, como o batismo perfeito que abençoou a vida e, agora, irá acolhê-la.

 A concluir a reflexão sobre a obra, não poderemos deixar de saudar o ilustre poeta Barroso da Fonte, autor do livro, o autor da capa, Nadir Afonso, e a Tartaruga Editora. A todos, o nosso reconhecimento pelo trabalho desenvolvido em prol da arte.

                                                                                                                  Júlia Serra


[1] Refere-se a Barroso da Fonte – nota pessoal

[2] Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, é um escritor angolano. A sua obra reflete sobre a história contemporânea de Angola, e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. – Wikipédia.