O autor explica, na Introdução, que esta obra resulta de um desafio proposto por Carlos Aurélio, para reunir alguns textos dispersos. E selecionando sete sábios portugueses, todos grandes filósofos, fornece-nos uma bela reflexão sobre “a ideia de que o aperfeiçoamento do conhecimento anda a par do aperfeiçoamento da alma e daí resulta a importância da oração e da reflexão sobre o bem e o mal. Estes aspetos são nucleares da filosofia portuguesa” (pág. 9) Estamos, portanto, perante um grande filósofo a refletir sobre o pensamento de outros sete, a saber: António Telmo, Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Régio, Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno.

Primeiramente, e em separado, explicou o significado de algumas palavras e as suas origens, aproveitando para relacionar a filosofia portuguesa com o belo, o bem, a verdade e a religião. De salientar esta passagem sobre a ascese e a oração: “A ascese, a oração contínua e o amor dos homens. (…) A ascese visa o aperfeiçoamento da vontade, a oração contínua visa a purificação da mente e a prática do amor pela humanidade, por Deus e em Deus, visa a vitória sobre o egoísmo.” (Introdução: 13). Na abordagem dos diferentes sábios, o escritor analisa a obra de cada um deles, aprofunda as suas teorias filosóficas em torno da explicação de uma filosofia portuguesa, relaciona conceitos com linhas de intertextualidades literárias e geográficas que se inscreveram no tempo, e sintetiza ideias essenciais, para que o leitor apreenda melhor o sentido e a profundidade das palavras. Sinde é, para além de filósofo, um comunicador privilegiado, na medida em que encaminha o leitor para a(s) mensagem(s) da obra.

A explicação de esoterismo e exoterismo, a partir da obra de António Telmo, é esclarecedora e essencial para a compreensão da obra, pois verificamos que, no final, o conceito de esoterismo e seus elementos opostos e afins são retomados, como para assegurar a sua circularidade temática e validar a consistência argumentativa. Assim, apresenta-nos a explicação: “o exotérico implica que haja dentro um esotérico, uma doutrina interior” (pág. 20) e esclarece que os termos “heterodoxia e ortodoxia”, na perspetiva de António Telmo, aparecem “como sinónimos respetivamente de esoterismo e exoterismo” (pág. 21). Acrescenta, Pedro Sinde, ainda a este propósito: “estabelecer o equilíbrio justo entre o esoterismo e exoterismo. Cada um tem o seu lugar e, dentro da vasta alma do esoterista, há lugar para os dois, porque reconhece que ambos cumprem um papel insubstituível” (pág. 27) O autor insiste nas tradições esotéricas, na filosofia, na hermenêutica, na oração e na saudade, para mostrar que o homem tem uma missão a cumprir na terra e só o saber o pode resgatar do mal e conduzir ao caminho que lhe foi predestinado por Deus. Através de metáforas, parábolas e citações bíblicas, o homem recebe ensinamentos para o bem e para a sua constante perfeição: “o olhar do homem deve procurar ser, para onde quer que se dirija, limpo, cristalino como o olhar azul do recém-nascido. À sua frente está sempre o mistério, o indecifrável que, no entanto, clama a sua decifração ao homem” (pág. 34); “o homem que comunica pelo pensamento com os anjos ou letras ou intelecto agente ou princípios noéticos do universo” (pág. 40), esse homem tem a natureza como espelho, mas o essencial é a reintegração de “todos os seres nos seus princípios primitivos…” (pág. 41) Num outro passo, lê-se: o homem deve ter a perceção de que “o conhecimento tem de ser aperfeiçoado, o homem parte de um mínimo de conhecimento, depois dirige-se ao máximo” (pág. 49) e não pode estagnar a meio da caminhada e deixar-se vencer pelo hábito; é preciso renascer para a vida e só consegue fazê-lo pela autognose. Aqui a oração contribui para o aperfeiçoamento: “…a oração filosofal é outra coisa, é o respeito secreto pelo sagrado, pelo mistério que se sabe velado e visa um aperfeiçoamento do ser do ser, para que a experiência do filósofo seja a própria experiência do mundo” (pág. 65).

Abordando Agostinho da Silva, Sinde refere as duas operações da liberdade – os pequenos mistérios e os grandes mistérios – identificando a fatalidade com o Diabo e a liberdade com Deus; faz uma abordagem pormenorizada da obra deste grande filósofo comunicador e reforça: “É só pela santidade que o homem pode suportar os tempos difíceis que vive, a incerteza do paraíso ou do inferno…” (pág. 79); explica a circulatura do quadrado e o sonho de Nabucodonosor, rei da Babilónia, através de Daniel, tecendo ligações ao Quinto Império e a obras da literatura portuguesa que focam este tema.

Álvaro Ribeiro surge na senda de António Telmo valorizando a filosofia como caminho do saber e em direção ao Absoluto. A sua aproximação com Régio é inegável através da relação da palavra com o pensamento e até com a oração: “(…o pensamento encontra a sua luz na oração”) (pág. 103). A propósito de Régio, surge um conto em que a personagem Silvestre é desdobrada em primeiro e segundo, simbolizando graus do “eu” – uma espécie de processo heteronímico – em que há um criador e outros mediadores; mas o que se afigura importante aqui é o aprofundamento do eu transcendente que origina o eu terrestre. Esta ideia, veicula Sinde, tem sido “descrita ao longo dos tempos em diversos movimentos, desde o arcaico zoroastrismo ao renascente islamismo…” (pág. 136).

Referindo Teixeira de Pascoaes, o autor salienta: “A característica que me parece essencial nele é a de ter aprendido a olhar o mundo permanentemente no estado de espanto, quer dizer, aprendeu a romper os hábitos e com isso ganhou uma liberdade que lhe permitia renascer a cada dia” (pág. 149). Mas Pascoaes, o conhecido poeta da Saudade, ligado à Renascença Portuguesa, apostava num renascer de Portugal interpretado com um cariz religioso, fazendo coincidir a saudade com a religião: “Esta religião nova seria a religião da Saudade, a religião daqueles que se sentem exilados ou a viver um êxodo; fundar-se-ia a Igreja Lusitana …” (pág. 151). Daqui surge a alquimia da saudade, com base na ideia de que a transmutação é processo fundamental do cosmos. Esta Saudade vai até Deus e, portanto, há uma esperança com raiz divina. E, na linha religiosa, Guerra Junqueiro, na Oração ao Pão e na Oração da Luz traça o caminho que ascende da terra para o céu. Apregoa um modus vivendi simples, ligado à natureza e com pureza de espírito.

A terminar os sete sábios[1], Sinde aprofunda a obra de Sampaio Bruno e destaca que o conhecimento, para este filósofo, é uma “operação teúrgica[2] em que a oração tem um papel primordial…” (pág. 177) na passagem do espírito alterado para o espírito puro. Uma vez mais, a oração é retomada como linha condutora da filosofia e da obra.

  São sete sábios, sendo o numeral cardinal um número eleito a que se juntou um outro sábio que, através da palavra[3], nos transmitiu todo este conhecimento que, só uma leitura integral do livro permite extrair a grandeza de todos os ensinamentos e avaliar a dimensão do seu autor… aquele que anuncia que “os seus planos para o futuro são aprender a viver ao Deus dará, sabendo que Deus muitas vezes dá, tirando.”                  

                                                                                                                   Júlia Serra


[1] O sublinhado é nosso

[2] O sublinhado é nosso

Nota  as citações estão conforme o livro. Não seguem o Novo Acordo Ortográfico

[3] Se pensarmos na tese de António Telmo, Sinde é um anjo, pois Telmo considera que “os anjos são letras, palavras ou frases” (pág. 41)