Um primeiro olhar vai direcionado da contracapa para a capa, pois cremos que a paisagem da montanha desagua no mar, donde emergem umas mãos femininas sustentando a “ânfora” que guarda os afetos. O vaso grego, que sabemos pertencer a um ilustre tirsense, Dr. António Miranda, reúne em si várias interpretações e simbologias: uma ânfora é um recipiente de barro de forma ovoide com duas asas simétricas, que serve para transportar produtos alimentares.[1] Aqui, a ânfora ressalta como símbolo do acolhimento dos afetos que as mãos femininas sustentam em forma de dádiva; do mesmo modo que a ânfora se pode encher de água, também o coração do homem será cheio de amor. Assim, a ânfora da capa sugere um gesto de entrega, apresentando a mesma função e simbologia do livro: a passagem do autor para o leitor; um vaso que pode saciar a sede. Tal como a “ânfora”, o livro precisa de público, para que a sua função seja reconhecida e completa.

Em relação à estrutura do livro, ele apresenta-se organizado em três eixos – Parábolas, Ânfora de Afectos e Canções – mais duas simbologias que se concentram, alojando-se na ânfora. A parábola – uma narrativa alegórica na qual o conjunto de elementos evoca, por comparação, outras realidades de ordem superior –  era muito utilizada por Jesus para despertar a curiosidade dos ouvintes e dar as explicações necessárias; as Canções, que surgem como anexos, são textos com enfoque na realidade social contemporânea, ressemantizando problemas de índole diversa: caso do Girassol que evoca a estrutura curricular do ensino básico; Canções de solidariedade que desaguam na Balada de Setembro e, a findar a obra, o Hino à Vila das Aves. Este último capítulo é uma espécie de interface entre o II e o I, pois a ânfora dos afectos, trabalhada predominantemente em sonetos, assume-se como ponto alto da criação literária, enquanto, o primeiro, Parábolas, surge como um espaço entre a Literatura e a Teologia, uma vez que se apresentam como verdadeiros exemplos morais: é o caso de “mulher da minha gente” (pág.22) e “terra de entre ambos-os-aves” (pág. 24). São poemas que, partindo da análise do quotidiano, sublimam a condição dos protagonistas: assim, a mulher “Que fia e tece sonhos de grandeza/ (…) Nas horas desfiadas a cismar nos filhos” (pág. 22) eleva-se e ultrapassa a sua dimensão física, tornando-se um exemplo; o mesmo acontece à dimensão físico-geográfica da terra que embalou Luís Américo – quer seja numa esfera mais restrita, Vila das Aves, quer numa dimensão mais ampla, Portugal  – ela é cantada com tal sublimidade que ultrapassa o real

A obra espelha bem o seu criador: a simplicidade, o amor à família e ao próximo, profissionalismo e a dedicação à Escola, o gosto pela arte e pelo saber; enfim, estes e tantos outros predicados estão plasmados neste livro e já foram evocados pelo seu amigo e colega de profissão, António Sousa, na abertura da obra.

São muitos os escritores aqui evocados: Torga, Sophia de Mello, Florbela Espanca, Rosália de Castro, Sebastião da Gama, Saramago; outros sugeridos, como Cesário Verde, através da alusão à aguarela “Aguarela Algarvia” (pág. 78) e aos versos: “Pintei um quadro simplesmente belo” (pág. 93) e “Houve uma coisa simplesmente bela” (pág. 79). A par dos autores, surgem artistas com referências à sua obra concreta, como Picasso e Chagall. Sendo um livro de poemas, ele não é apenas a expressão do “eu”, ele é mais a expressão dos outros que o “eu” atento soube captar e interpretar através da palavra. Esta amplitude impressionante de temáticas e lugares coloca a obra numa esfera mais global, como aliás o próprio sujeito poético cantou: “Que nos tornem mais humanos, fraternais;/ E sabermos falar idiomas estrangeiros, / E sermos cidadãos do mundo inteiro” (pág. 116). Mas, esta poesia é, essencialmente, grande testemunha do amor, quer na sua vertente familiar, através da referência aos filhos, à mulher, ao pai, à mãe, aos irmãos, às datas festivas alojadas na memória, quer o amor sensual em “Mulher Negra” (pág. 36) e “Peixes Vermelhos” – um poema que faz lembrar Eugénio de Andrade.

Há ainda referências a lugares e ao tempo: Algarve, Alentejo, Aves, Natal, setembro, inverno. Este enquadramento espácio-temporal fornece imagens captadas do quotidiano presentes na dimensão constitutiva da cultura e da sociedade – caso da mulher tecedeira, símbolo de uma indústria têxtil fulgurante, hoje decadente, em Vila das Aves. Esta dialética da poesia e do social projeta-se ainda mais, ao relacionarmos o linguístico e o simbólico, o metafórico e o real, conferindo ao discurso um realismo mágico. São poemas que não esqueceram o sofrimento, evocado no belo soneto a seu pai: “Quem tem o corpo a arder em chagas vivas” (pág.  97); a religião, estampada nas virtudes da mãe: “Lições simples de vida e de verdade/ No tesouro da nossa intimidade,/ E incarnadas palavras do Evangelho.” (pág. 101) e a brevidade da vida: “A vida é breve, breve quanto baste/ Para deixar sinais de nostalgia/ É um flash de luz e o seu contraste/ Em emulsão nesta fotografia” (pág. 103). As temáticas mais recorrentes, para além do amor, surgem muito associadas à água, à terra e à luz; poder-se-á dizer que são elementos essenciais para que haja fruto e a seara seja fecunda, tal como aconteceu na sua vida: “Tinhas quase o tamanho da seara/ E a gravidez fecunda de um celeiro” (pág.99). Um autêntico hino aos seus progenitores!

        Luís Américo conseguiu fazer uma obra igual a si mesmo: um livro onde a magia e a transparência da palavra ajudam a concentrar o tempo da biblioteca memorial, conferindo-lhe intemporalidade.

                                                                                                                               Júlia Serra


[1] A forma das ânforas permitia que fossem facilmente arrumadas, em grande quantidade, no interior das embarcações que por via fluvial e marítima comercializavam ao longo de vastas regiões, o azeite, o vinho ou os preparados de peixe nelas contidos. Foi inventada pelos gregos e adotada por outros povos. Além disso, a ânfora pode ainda ter classificações, de acordo com os alimentos guardados e as características da pasta cerâmica utilizada no seu fabrico.