A obra de Carlos Aurélio Considerando os Filósofos disse-me muito mais do que estas simples palavras tentarão explicar, pois, para além da dificuldade em encontrar frases que exprimam toda a dimensão da intencionalidade do sujeito, este livro é essencialmente um ponto de partida para reflexões filosóficas, e, portanto, só a leitura nos apraz. Se, na realidade, no autor, a filosofia surgiu por gosto, tenho lido obras de quem se diz filósofo, com muito menor sabor e sapiência.

Há três aspetos que considero fascinantes na obra: a organização, incluindo os arranjos, a conceção dos textos, considerando o “considerando” e o poder da escrita. O autor conjugou as suas capacidades estéticas e o saber polivalente das faculdades literária e filosófica e pintou, por palavras, aquilo que muitos não conseguem esboçar na tela.

Sem receio de criticar este ou aquele movimento artístico, fê-lo com toda a propriedade e humor: “Quando a cultura urbana de massas começou por exibir a paródia da arte ao nível do hipermercado, a Pop Art repetiu a própria repetição no significado das latas de sopa de Andy Warhol que se digere na velocidade consumista do sorriso da Marylin Monroe ou na artimanha paternalista de Mao Tse-Tung …” (pág.63) e essa crítica, de imediato, e por associação, serviu de pretexto para a abordagem de outras temáticas transtextuais que marcaram a sociedade de então, como a clonagem e os transplantes médicos. Este leque de abrangências, que as palavras vão tocando, suscitam, também elas, no leitor, outras visões que ajudam a “enformar” a obra. São vários os exemplos apresentados, muitas vezes sob a forma de metáfora, para tentar exprimir intencionalidades subjacentes que entremeiam todo o livro, desaguando, no final de cada capítulo, num halo de esperança – como exemplo: “E – quem sabe? – se ao crepúsculo vespertino do dia seguinte, Sábado Santo, não  distinguiremos dentro de nós o Sol da aurora nascente, simultâneo com o disco solar acabado de descer à terra!” (pág. 96).

Constituem seus verdadeiros topos a luta pela identidade, a afirmação religiosa do autor e o amor à terra alentejana, particularmente, Vila Viçosa. Da conjugação desta tríade resulta a essência da obra, e os filósofos, os poetas e a história da Igreja citada surgem como fundamento do seu universo criador, sendo a palavra o veículo mediúnico que faz do homem/autor um ser-superior. É por isso que, independente de ser médico ou arquiteto, caso de João Rêgo ou Pinharanda Gomes, estes homens foram exemplos de vida e lutaram, tal como Carlos Aurélio, pelos seus ideais. Para além destes nomes, surgem ainda na obra Álvaro Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Orlando Vitorino, António Telmo e tantos outros. Com António Telmo, a partir da obra Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, é-nos dada a conhecer uma interpretação singular da Ilha dos Amores e o autor aproveita para nos dar o “Tratado das cores”. Evocando Goethe, explica: “Se, sobre um papel branco bem iluminado colocarmos, por exemplo, uma tampa de esferográfica vermelha e olharmos, concentradamente, durante cerca de um minuto e em seguida retirarmos o objeto observado veremos, em seu lugar, uma mancha com a forma da tampa e na cor verde. Tratar-se-á de um verde próximo do jade e bem luminoso.” (pág. 217). Esta explicação permite inferir outras leituras, aliás acrescentadas pelo autor: “A plenitude da alma, da qual os olhos são as janelas, tem, pois, na observação e meditação cromáticas a metáfora na qual as cores são símbolos e não alegorias. Trata-se de uma experiência efetiva da alma, cujo desenrolar e significado não supõem subjetivismos, característica aliás similar à que acompanha a via iniciática“(pág.218) Outras interpretações sui generis são aqui apresentadas, como a essência do Direito Penal (com base em Orlando Vitorino e este por sua vez  a partir de Hegel): “Quer dizer, a pena não se amesquinha como castigo, antes se exalta em direito inerente ao indivíduo que, assim e através dela, volta a saber-se cidadão por inteiro, redimido em pleno no corpo da civitas. Notável como o Direito Penal pode refletir o sinal redentor da bondade cristã!” (pág. 238). Esta capacidade de superação do corpo em espiritualidade sobressai nas diversas reflexões, embora o autor tenha sido exímio ao afirmar no Prólogo: “É mais alma que espírito, mais poesia que logos”. Nesta afirmação, parece estar subjacente uma intensidade catártica a que o espírito devia submeter-se em prol da “alma”, tal como o logos não era simples. 

O autor atingiu o objetivo enunciado na abertura do livro e, no final, depois de ter evocado a saudade, o Sebastianismo e um pouco de tudo … acrescenta: “Desde que nascemos que somos em pequeno o que é o mundo inteiro em grande e, talvez também por isso, fomos fazer a Terra una num único abraço” (p. 258). Esta exaltação patriótica está aliada ao sonho do Quinto Império e ao desejo da construção de uma pátria espiritual, tal como a concebeu Pessoa, sempre na senda da verdadeira Identidade.

Talvez por isso, tenha escrito: “Portugal esquecido, tenho saudades dos poucos que nunca se esquecem de ti.” (pág. 258).

Carlos Aurélio pode ter a certeza que há de acordar muitos e as suas palavras, mesmo que não despertem todos, podem perturbar alguns …. 

Em jeito de trocadilho, aconselho “Considerando de Carlos Aurélio” como livro de cabeceira, pois a beleza das imagens repousa o olhar e convida ao descanso; a profundidade dos textos prolonga-se no pensamento. 

                                                                                                 Júlia Serra