Este livro, para além da homenagem às mulheres nobres que fizeram parte da nossa História, é também um louvor à escrita no feminino, pois a autora é uma mulher e o prefácio é igualmente da autoria de uma mulher.

É preciso amar a História e cultivar-se o gosto pela investigação para trazer a lume os principais traços caracterizadores destas mulheres que foram companheiras dedicadas, mas quase sempre apagadas pelo nome dos homens/maridos! Se ainda hoje a sociedade é tendencialmente falocêntrica, na Idade Média e no Renascimento o poder do homem era inquestionável. A condição da mulher dependia dos meios e vontade do masculino, podendo este, em qualquer momento, pedir a dissolução do matrimónio, não sendo o mesmo permitido à mulher. O casamento funcionava, particularmente entre os nobres, como contrato e não como uma união de amor (salvo raras exceções). Esse contrato era firmado pelas famílias muito cedo. Vejamos o caso da Rainha D. Leonor: “Nascida em Beja no ano de 1458, casada aos 13 anos de idade com D. João II, ainda príncipe na altura, atravessa quatro reinados” (pág. 71); outras vezes, um mero joguete político, caso de D. Joana (A Beltraneja) – pág. 89.

 Pegar nestes exemplos e desenraizá-los da História revela um invulgar gosto pela investigação e a posse de um espírito feminino/ feminista. São estes rasgos que fazem, das mulheres escritoras, escritores singulares e combatentes que se sobrepõem ao vulgo masculino ou ao sonhador encantado.

Num tempo em que se fecham hospitais e a sociedade está desumanizada, presentificar a ação de D. Leonor e o seu contributo em prol dos carenciados é uma forma de doutrinar e acrescentar o que falta fazer no presente para se fazer História. Esta Rainha fundou o Hospital das Caldas e criou a primeira Misericórdia, conforme testemunha a investigadora:

    Quando, em 1498, D. Manuel I e sua mulher, D. Isabel, se dirigiram ao país vizinho para serem jurados herdeiros do trono de Castela, D. Leonor deteve em suas mãos as rédeas do poder… na qualidade de regente do reino. É nessa altura, a 15 de agosto, que institui a primeira das confrarias conhecidas pelo nome de misericórdias”. (pág.82).

D. Leonor, apesar das controvérsias assumidas face ao posicionamento do poder, foi uma mulher dotada de espírito caritativo e com um enorme sentido de governação. Há, no entanto, outras mulheres nobres aqui distinguidas pelas suas intervenções, ou, eventualmente, sacrificadas pelas suas provas de nobreza de caráter – caso de D. Joana (1462-1530) e até Princesa Santa Joana que foi canonizada em agosto de 1964.

De igual forma, o trabalho realizado por estas mulheres em benefício da educação e cultura portuguesas constituiu outro ponto digno de realce; elas foram grandes poetisas e intérpretes da nossa cultura – salienta-se, para além de D. Filipa de Lencastre, a infanta D. Maria, aplaudida pelo Mestre André de Resende. Estes pormenores e muitos outros fazem parte desta bela história.

          Trata-se de um livro que é um hino à mulher, pela sua presença constante na obra e pelas ações por elas desenvolvidas que, ainda hoje, contribuem para estruturar a nossa sociedade. O facto de o prefácio ser da autoria de uma mulher destacável da política e da cultura portuguesas – Dr.ª Leonor Beleza – este dado ajuda a corroborar as nossas afirmações.

Esta ideia de descobrir o passado atualiza o presente e permite cotejar dois tempos, sugerindo (re)invenção de novos factos. Trata-se, portanto, de uma técnica de desenrolar o novelo histórico e desenvencilhá-lo perante o nosso olhar – eis uma estratégia didática profundamente enriquecedora que comprova que quem gosta de ser professora sê-lo-á a vida inteira e nunca chegará a hora da aposentação…

Uma enorme expressão de apreço à autora, Anastásia Salgado, pela sua ideia invulgar de nos mostrar o passado e a Espiga Pinto que tão habilmente “encorporou” a mulher neste simbólico oito desenhado com seus cabelos. De acordo com o Dicionário dos Símbolos de Chevalier, o oito é o número do equilíbrio cósmico e está associado à justiça; o sinal matemático do infinito é um oito deitado. Reunindo estas interpretações, e pelas sugestões implícitas na imagem da capa, o pintor presta uma bela homenagem à Mulher. 

Um livro com História onde impera o amor e o desamor das mulheres nobres do passado.

                                                 Júlia Serra