Prefácio

O poeta é um “ser” que se vai construindo nas aprendizagens das mundividências e com as interpretações que a sensibilidade e a emoção ajudaram a sublimar e a transportar para um mundo superior, à espera da hora para se dar a conhecer. Essa passagem do plano transcendente para a descoberta da palavra poética é um ato de inteligibilidade, coragem e de sabedoria; por isso, os poetas são vistos como seres mais altos, despojados de materialismo, alguém que vive no seu próprio mundo, mas com o desejo supremo de o partilhar, assumindo-se na sua solidariedade.

Virgílio Carneiro, reconhecendo este processo e tramitação da ideologia à palavra, afirma com humildade:” Gostava de fazer um poema! /Não sei como…, não sei quando…/Porque não sou poeta!” (p.4). É evidente que a poesia pode ser trabalhada por todos, mas nem todos são verdadeiros poetas; isto é, são reconhecidos como arautos de novas mensagens ou portadores de uma sensibilidade estético-estilística caracterizadora de correntes literárias formalizadas. Ora, aqui, o poeta pretendeu prevenir os leitores, embora sem razão, porque a sua experiência literária e didática, para além de uma carreira reconhecida a nível político-social, dotou-o de uma “sagesse” indelével e inquestionável.

 O presente livro, Poética do Desassombro, contém marcos que têm orientado o “ser” desde a sua infância até ao outono da vida, assinala as recordações do tempo-espaço que moldaram o seu percurso poético, revela as narrativas memoriais de certos momentos da vida e versifica as emoções, alinhando-as, ora em quadras e poemas mais formais, ora optando por uma poesia mais livre e heterorrítmica. O isomorfismo clássico conjuga-se, assim, com o versilibrismo mais moderno que liberta o poeta das regras formais, permitindo um jogo mais personalizado e a gosto do sujeito poético. Nesta situação concreta, Virgílio Carneiro – o homem-poeta – escreve o que lhe vai na alma com simplicidade emocional, não querendo igualar-se a ninguém, apenas ser ele próprio na escrita, como foi /é na vida. Lembrando Miguel Torga, Diário XVI: “o homem é um mistério encarnado, opaco a maior parte das vezes aos olhos mais penetrantes. Por isso ninguém conhece verdadeiramente ninguém. Mas os poetas mostram-se como são.” (p.166). É imposição da poesia desnudar o homem, levando-o às profundezas do ser e dar ao leitor a oportunidade de conhecer o verdadeiro poeta. Mesmo aqueles mais transgressores, ligados ao Modernismo – caso de Mário de Sá Carneiro ou Fernando Pessoa – sentiram necessidade de se explicar perante o público, quando pretendiam ocultar-se/ou (des)ocultar-se da sua enigmática estratégia: “O poeta é um fingidor” (Fernando Pessoa) ou a incompletude do sujeito, transformada em drama: “Um pouco mais de sol – eu era brasa,/ Um pouco mais de azul – eu era além./ Para atingir, faltou-me um golpe d’asa…” (Mário de Sá Carneiro). São exemplos de como as palavras poéticas ajudam a construir a imagem do poeta, porque as palavras de um poema não são iguais às outras: elas vêm de outra fonte e vão libertas, para outras margens; não estão agarradas ao significado de um dicionário. Assim, ser poeta é um sonho para muitos; é uma experiência que, um dia, precisa de ser vivida: então, o poeta escreve, dilacerando o papel e ativando a memória para partilhar a sua vida, os sentimentos e as palavras; enfim, para se entregar ao Outro. Este gesto relacional torna o poeta mais solidário e universal, fazendo com que a vida seja mais cheia: “A vida é lenta quando a morte tem pressa” (Miguel Torga), ajudando a vencer esta antinomia subjacente a cada instante da nossa existência.

Os poemas desta antologia são retalhos de um ser que quis contar a sua mundividência, através da História que o destino lhe permitiu ensinar aos seus pupilos, na qualidade de Professor, através do amor e da entrega aos outros, como expressa no poema, incitando-os também a fazê-lo e não a desperdiçá-lo ou deturpá-lo: “Agarra-me essa palavra pequena…/Porque ela é terna, profunda, serena!…/Porque é por ela que a paz chega ao mundo!” (p.28). Mas os “retalhos” formam uma teia memorial muito bem urdida: com a evocação dos nove netos, com a lembrança da esposa e dos amigos, particularmente, Alberto Santos, reconhecido escritor de Penafiel. As memórias do lugar e do tempo surgem também materializadas no cavaquinho e na bicicleta, tempo jamais perdido e ligado à beleza simbólica das terras: Requião, Braga, Guimarães, Sameiro, Fafe – uma longa cartografia gravada na biblioteca memorial revivida nestes impulsos poéticos. Há uma espécie de um “eu” à deriva que se vai encontrando, à medida que a poesia ganha corpo e a antologia se constrói; um “eu” que tinha de escrever as palavras que brotavam naturalmente… sem pretensões, mas nascidas no ambiente certo para respirar livremente.

A alusão a Santo Agostinho – “É na humildade que reside o poder”, no pórtico principal da antologia – é o lema deste homem-poeta que transforma os cenários, por onde a imaginação passeia, em elementos vivos da natureza, e se vai assenhoreando do tempo, através das palavras. Observa-se uma linguagem, ora mais trabalhada, ora mais simples, condizente com as temáticas selecionadas e a tipologia de verso adotada. Há uma preocupação de rima e de métrica visível e predominante, sobretudo, nas quadras e nos sonetos, embora surjam poemas mais livres em forma de cantiga, ode ou hino.

Um livro cheio de surpresas poéticas que acalma a inquietação da alma e vence a turbulência emocional.

Um livro que vai permanecer na memória e no coração de cada leitor e que poderá ser o caminho para cada um descobrir o culto da Poesia e o valor que esta representa para si. Este ato de iluminar as palavras, dando-lhes vida e retirando as sombras, é sempre uma tarefa corajosa que defronta o poeta e faz dele um vencedor ou vencido, permitindo ou não a sua gravação na caligrafia do tempo. Uma vez mais, Virgílio Carneiro soube inscrever-se habilmente, deslizando ao sabor das memórias e do mundo.

                                                                                                                                       Júlia Serra