O sétimo sentido surge na sequência do sexto e citando o Prólogo: “O nosso sexto sentido é aquele dom de que todos nos arvoramos ter mais apurado que outrem. É, por isso, uma ilusão, esse sexto sentido, não sendo, para uns, mais do que um acumular de experiências vividas e uma arma maléfica, para os moralmente mortos”. E o autor continua: “Fácil assim será aos portadores do precioso sétimo sentido suplantá-los, mostrando-lhes, com um sorriso entristecido, pela intrínseca tacanhez enraivecida de que tais espécimes padecem, a via da Perfeição do Silêncio, da Perfeição do Vazio quase total do Universo, onde a matéria, de quando em vez, canta hinos de alegria, sem camuflar o silêncio”. O número cardinal sete é símbolo da perfeição e corresponde às sete esferas celestes e às sete pétalas da rosa, revelando, portanto, uma supremacia sobre o seis que, pela sua virtualidade, pode fazer deste número prova entre o bem e o mal, inclinando-se mais para o risco do mal. Aliando o título do livro ao Prólogo, o recurso ao numeral ordinal “sétimo” serve para reforçar uma mensagem oculta que a obra vai tentando desmistificar, gerando no leitor curiosidade e mistério. Este sente-se comprometido numa descoberta que as intencionalidades comunicativas, a par de um discurso metafórico e até alegórico, tentaram velar, com o intuito de veicular mensagens profundas sem o recurso a invetivas diretas.

Sendo o Prólogo a anunciação da obra, a esperança de compreensão do que se segue, o leitor presta, por vezes, uma atenção especial para uma melhor assimilação do conteúdo, neste caso concreto, ele necessita, sobretudo, de uma leitura após a conclusão do livro para uma melhor apreensão do “Sétimo Sentido”. Uma primeira leitura suscita um certo inconformismo e revolta, numa segunda fase, o leitor, na posse de outros elementos, pode alcançar o carácter construtivo das críticas, intencionalidades subjacentes e, sobretudo, o desejo de solidariedade, num mundo em que aponta um egocentrismo exagerado que põe em causa a liberdade e a máxima de Descartes “Cogito ergo sum”.

Com o intuito de análise de alguns aspetos da sociedade, vítimas dos “moralmente mortos”, o autor faz renascer, pela memória, um colega da infância, já desaparecido, que, pelos seus dotes, foi nomeado de “Dr. Daniel”. Esta personagem, de origem transmontana, vai ser colocada no meio lisboeta para dissecar os aspetos que interessavam intrinsecamente ao narrador. Ora esse pretenso heterónimo tem um curso de Direito, uma vida muito própria e hábitos invulgares, sempre à medida do seu criador. O início da obra refere a morte do colega: “Morreu criança, apenas com sete anos.” (p.11) e, no final, Daniel embarca no Tejo “Trovão dos remos que Daniel conduz de rio a rio, de margem a margem de foz a foz. Foz do Tejo, foz do Douro, foz da vida, sem se espraiar nas margens” (p.96). Daniel é a esperança do autor, já fora amigo, agora, após uma vida fictícia, vai ser o anunciador do Quinto Império: “Daniel subiu o Douro, enfim, na Barca do Quinto Império.” (p.97) A retoma da temática inicial confere ao livro uma circularidade que se aproxima da perfeição oculta do ponto primordial.

O narrador omnisciente controla a sua personagem, que ele considera “filósofo póstumo e filósofo do passado” e com quem mantém ligações de afetividade, passando esse sentimento para o leitor: “O Dr. Daniel, nas suas cogitações solitárias, ora se considerava um filósofo póstumo, aquele que não está preparado para a época em que vive, ora um filósofo do passado, como se permanentemente lambesse as feridas da História…” (p.32). Era muito solitário, atento aos pormenores e, para que nada escapasse tomava notas num caderninho: “Tomar notas nos seus caderninhos” (p.41). As suas lucubrações de espírito traduziam a voz do narrador e qualquer saída ou atitude do Dr. Daniel dá azo a que aquele expanda o pensamento, faça críticas, ou simplesmente, coloque no discurso a raiva do silêncio forçado: “Contudo, se me desculparem a grosseria de linguagem por falta de vocabulário adequado à explanação das minhas ideias na tentativa de saltar a cerca de arame farpado…” (p.87). Daqui surgem as interrogações do narrador: “Será, então, lícito estar eu a escrever sobre os homens guardadores de um pôr do sol estático? Estar-me-á inscrito nos genes que eu tenha de o fazer em determinado dia e em determinado ano?” (p.88). São questões sem resposta que minam o ser em silêncio e conferem à escrita um efeito purgativo.

Trata-se de um livro que exige um apurado sentido do leitor para apanhar as malhas que estragam a rede e, apesar de um esforço de conserto, é difícil reencontrar a união primordial, embora fique uma réstia de esperança simbolizada na alusão ao Quinto Império e à junção da poesia à prosa, no final.

Esta obra conduz o leitor às profundidades do pensamento e relança-o para um novo olhar sobre a vida e sobre a escrita.              

Júlia Serra