Guida Nunes, uma escritora transmontana e uma mulher conhecedora de outros espaços, lança uma mirada sobre o migrante que vive num não lugar, fora do espaço e do tempo. Os termos Mirada Migrante constituem o título do livro que aborda a grande problemática das migrações que afetam o mundo global, pela teia de relações interculturais que se repercute nos processos identitários resultantes das sociedades de origem e das adotivas, levando estes migrantes a relacionar-se com mais de uma nação, criando, por vezes, movimentos de resistência.

O título da obra foi retirado do poema com o mesmo nome Mirada Migrante (pp.33-34) coincidindo precisamente com o meio do livro, em que o sujeito de enunciação se prendeu pelo olhar de uma mulher “Diante desta folha de papel improvisada/ Queria saber porque não esqueço o teu olhar/” (p.33) que lhe provocou algumas interrogações. Mas esta mirada, que poderá ser traduzida por “olhadela”, é muito mais abrangente e profunda, na medida em toca aspetos políticos, sociais, culturais e até pessoais. Há poemas que, partindo da comunicação social, se entranham no seu coração e despoletam memórias que lhe ficaram na pele, caso do poema “Meu Pai e Mandela” – uma verdadeira história de amor – “(…) Hoje ouvi uma filha dele na TV/ Dizia que ele não fala/Que comunica com as mãos/ (…) Pai/ Ainda sinto as tuas mãos daqueles dias” (p.43). As mesmas mãos que agarraram as do pai, em “Mãe e Pai” levam o sujeito poético a “Passar a mão na foto/Por não ter passado a mão no rosto/Por falta de tempo e coragem” (p.31) – são poemas pessoais que despertam emocionalmente o leitor e provocam reflexão. Outros poemas apelam para as injustiças do mundo: “Uma cenoura, três batatas e um pão” em que “Maria vê o seu filho estendido no chão/” (p.18); “Traqueostomia”, poema que nos mostra os vários comportamentos do homem na sociedade até se “engasgarem” (p.30). A guerra também perdura em “tempos mudam-guerras ficam” (p.45).

Trata-se de um livro com trinta e cinco poemas que tocam os vários pontos da atualidade, não ignorando o papel da Europa e passando em revista algumas figuras destacáveis do mundo político que, direta ou indiretamente, influenciaram/influenciam Portugal. Há alusões a contrastes entre ricos/pobres e, enquanto uns exibem luxuosas indumentárias e colares de diamantes (ver p.49), outros vivem na miséria extrema e não têm pão, mas enfrentam a vida com coragem e amor – exemplo do poema “Maria”, em que o sujeito poético confessa “Senti inveja da Maria” (p.55). Alguns destes temas já haviam sido tratados em prosa nas obras da mesma autora, sobretudo, em (In)justiças, onde sobressai mais o seu carisma profissional e o vocabulário afim da advocacia.

Esta faceta de Guida Nunes em poesia constitui uma novidade, mas é um pretexto esperançoso para abrir as portas a novos desafios, ao “Poeta digital”, mas sem se deixar intimidar pela máquina: “Agora devo obedecer a uma máquina, /a um programa/ a um sistema operativo” (p.26). A mão também se cansa – lembremos Eugénio de Andrade: “Começo a dar-me conta: a mão/que escreve os versos/ envelheceu “– e tem de arranjar outros suportes. Guida Nunes, num tom ora mais sério, ora mais jocoso, escreve os seus versos como se escrevesse em prosa, com histórias, mas provocando emoção e intimismo; por isso, os poemas são mais prosaicos, libertos da preocupação rimática e de métrica, para usufruir de fluidez. São poemas narrativos deslizantes que revelam o desassossego e o inconformismo do sujeito lírico perante a consciência do real, servindo-se da escrita para abanar o espírito dos leitores, perante os fenómenos sociais, assumindo, assim, um traço de modernidade.

 A terminar, Mirada Migrante denuncia ainda tensões dialéticas entre a consciência do precário e a vontade de interpretar sentidos implícitos que, enformados na linguagem, pretendem elucidar os leitores, por isso, há uma leitura subjacente que cada um deverá descodificar. Um convite à leitura!

                                                                                                             Júlia Serra