O prefaciador, José Ribeirinha Diniz da Costa, destacou nesta obra “Travessia” quatro etapas da vida do autor que integram o segundo excerto da contracapa: “a infância e a forte ligação à sua mãe; a juventude com o desabrochar dos impulsos do amor; a vida de adulto com toda a sua problemática económica e social e, finalmente, os problemas que testemunham os sintomas da velhice”. Apesar de estas temáticas serem a trave-mestra do livro, há outros aspetos que configuram o tempo vivido na imagem da travessia. Considerando que o barco é o símbolo da vida e da morte, a ele está ligada a significação de uma passagem de um mundo para outro (poder-se-á também inferir uma certa segurança que advém da Arca de Noé), no entanto, a travessia, linearmente visível na horizontalidade, assenta em pilares verticais que constituem o início e o fim, representando os alicerces das subvariações e o desfecho dramático do ser. Os poemas “O primeiro acto (génese) – p.17”; “O segundo acto (metamorfose) – p.18” e “O terceiro acto (O grito) – p.19 “conotam o momento da conceção, o desabrochar uterino e a hora do nascimento, mas, a nível semiótico, podem remeter para a origem da humanidade, para as transformações operadas ao longo da vida e, finalmente, o grito, lembrando a imagem de Munch, que aventa os medos, a solidão e as frustrações sentidas que culminam com a morte. Assim, o início da Travessia, resumido em três atos, pode ser realmente o despontar para a vida, mas também a representação do drama existencial que, concretamente, o eu poético viveu e, hoje, quer retratar em verso. Assim, o presente/passado, a cidade/campo são dicotomias que provêm dos poemas e se conjugam com as quatro etapas acima destacadas. 

Trata-se de uma obra simples e intimista que quer mostrar o “saber por dentro” dos lugares mais queridos da infância que se localizam em Morais, uma freguesia de Macedo de Cavaleiros. A passagem do tempo, mediada entre a criança que foi e o adulto maduro que é, surge-nos evocada através da memória e pela revisitação do próprio espaço “Chegar à minha aldeia, /E ir visitar a Ribeira, /Era a necessidade primeira.” (p.56). Num tom dialógico e acompanhado por familiares e amigos, os versos vão jorrando como a água cristalina da fonte. Uma bela estória que revela o júbilo ontológico do reencontro. Não há falsidade no pisar deste chão, nem hipocrisia na aproximação com o agricultor, pelo contrário, há gestos de reconhecimento traduzidos em Ode ao Lavrador e a todos os que preservaram o lugar, para que esta Terra se transformasse em Céu: “Que eu penso que tu, Terra-mãe,/És um bocadinho do Céu” (p.33). O rio Sabor e a terra transmontana ganham um sentido de união e de paz que nem sempre o mar abarca, como refere o poema “gente que pertence ao mar!” (pp.38-39).

Para além desta vertente saudosista dos cenários que constituíram parte da vida do poeta, outros sentimentos se fundem na cartografia dos lugares, como o amor, a inquietude, o sofrimento e o desassossego, mostrando a profusão da alma do ser. Em tom de frustração, emergem as revelações sofridas de não ter seguidores de geração – ” Porque só eu é que fiz dois rebentos (…) Um chamou-o Deus (…) E o outro, gostando de animais, destes rebentos não pode ter,/”(p.72) – o que o leva a justificar-se perante o pai e revendo-o em “Um poema para o meu pai”(pp.71-73); o amor, em diferentes épocas e relações, ocupa uma longa parte da obra, destacando-se um amor desmedido pela sua mãe no poema Eu quero a minha mãe, onde escreve num tom elegíaco “Na hora da despedida/uma criança chorava”(p.22), lembrando Miguel Torga e Antero de Quental; já os poemas O peito da minha Mãe (p.24) e Os olhos de minha mãe (p.25) centram-se em aspetos mais particulares e tocantes do corpo da mãe que jamais esqueceu: ”Como eram lindos os olhos teus,/Minha querida Mãe.” (p.25). Um outro tipo de amor e de relacionamento é cantado em Impulsos do amor (p.41), A timidez e o pecado (p.42), Os olhos não mentem… (p.44) O beijo (p.45) e Nunca te direi adeus, meu amor (p.46). Este último poema está escrito no futuro “te direi”, pretendendo selar toda a vivência amorosa construída desde o passado, com destaque para o primeiro encontro e para O beijo. Os versos “Nunca te direi adeus, meu amor/ Mesmo que a morte nos separe.” (p.46) fazem uma retrospetiva da vida a dois e revelam os sentimentos que unem o eu ao tu nesta travessia que galga para o limite. O poema Nunca te direi adeus, meu amor, dedicado à esposa, juntamente com Em Memória do meu filho, À minha filha e A Morais constituem a Dedicatória. O amor paternal estampado nos poemas iniciais dedicados aos filhos João Carlos (falecido) e à Ana Sofia são a melhor expressão de amor e ternura emoldurados no coração do sujeito poético. O sentimento de amizade também não é esquecido e assoma-se em Os Amigos: “Que é bom ter amigos, /mas amigos de verdade” (p.48-49).

 Um livro prenhe de sentimentos e de emoção que cria espaços de silêncio ao leitor pela subtileza e pelos códigos poéticos utilizados, para demonstrar a transitoriedade e instabilidade do percurso humano. O leitor sente-se contagiado e envolvido em igual travessia que, inexoravelmente, o afeta e, por isso, caminha ao lado do sujeito de enunciação.

Esta Travessia contém tanto de belo como de trágico, como representa a imagem da capa, pois, embora seja uma imagem estática, ela simboliza o movimento da vida, os passos que foram dados e os que, eventualmente, faltarão para cumprir o Destino. Note-se que o homem colocado de costas voltadas, segurando os balões atrás das costas, expressa que a vida já não sorri, os cabelos brancos debaixo do chapéu revelam igualmente o peso da idade e já não há muito tempo para as fantasias dos balões e do voar que foram apanágio da infância. Resta apenas alguma luminosidade estampada no branco da luz e na indumentária. Dos cinco balões, o mais destacado é o vermelho, aquele que está mais cheio e, talvez, anuncie mais tragicidade, mas fiquemos com a esperança do colorido dos outros.

Esse homem – imagem poderá, a todo o momento, surpreender alguém através da partilha dos balões, repetindo o mesmo gesto do poeta ao oferecer os seus poemas a hipotéticos leitores, versos resultantes “Num momento de inspiração/Num gesto de sublime amor” em A invenção da palavra (p.69)

Uma imagem que, associada ao título, traduz e resume Uma Vida.

Parabéns ao poeta e artista João de Deus Rodrigues.

                                                                                                                                                Júlia Serra