Esta obra formula interrogações, visíveis até na contracapa, sobre “(…)quem está sepultado no túmulo em Compostela?” O narrador, após aturados estudos e investigações, sugere-nos outras interpretações que vão além do apóstolo Tiago e os seus dois discípulos, focando-se essencialmente na vida de Prisciliano, “líder de um movimento carismático”, cujo corpo chegou, no final do séc. IV, a Iria Flavia (atual Padrón). Pode considerar-se um romance tese, uma vez que toda a narrativa se apoia em dados científicos e religiosos conducentes a uma visão credível sobre a identidade das ossadas existentes no templo de Compostela. Segundo parecer dos professores de medicina, as relíquias exumadas nas escavações da Basílica Compostelana apontam para três esqueletos incompletos, de desenvolvimento e idades diferentes e com séculos de existência. Esta conclusão remete, pois, para Prisciliano e os dois homens que o seguiam na sua crença, igualmente decapitados: “Toda a Galécia os venerava e tratava como verdadeiros santos. Naquela noite de lua cheia,[1] ninguém arredou pé até à manhã seguinte, em vigília, proclamando e cantando, madrugada adentro, salmos e orações que Prisciliano lhes ensinara”. (p. 450). A alusão à lua cheia, nas cerimónias fúnebres, adensa o mistério pela simbologia inerente: “símbolo de dependência e do princípio do feminino, (…) símbolo de transformação e crescimento. (…) a Lua é também o primeiro morto. Durante três noites, em cada mês lunar, ela está morta, desapareceu… depois reaparece e cresce em brilho. Da mesma forma, considera-se que os mortos adquirem uma nova modalidade de existência”[2]. Pela lua, Egéria (a protagonista do romance) sentiu-se mais perto de “Prisco” e de Uno.

Este romance, aliás na mesma linha de A Profecia de Istambul, contém uma bela história de amor que prende o leitor até ao final da obra, sem, no entanto, minorar a importância do cenário histórico e religioso que envolve as personagens. Desde o Oriente, como local de culto e de ensinamento dos caminhos da Fé, passando por locais concretos até ao Ocidente, bem como as lutas religiosas existentes à época em que nasceu Prisciliano (filho de Priscila e de Lucídio): “à hora nona do oitavo dia antes dos idos de janeiro, o dia 6 do primeiro mês romano, de 349.” (p. 23) todos estes elementos contribuem para a construção da teia narrativa que deu o “Ser”. A complexidade da História e das estórias, aliada à cartografia dos lugares e à profusão da linguagem e do discurso, transformam este romance num documento; no entanto, a raiz emotiva e ficcional patente encaminha-o para um romance de amor, podendo estar balizado entre estas duas tipologias.

Romance de longo fôlego, onde predominam cenas amorosas cheias de erotismo e sensualidade, contrastando com momentos de meditação e elevação mística – um verdadeiro guia para mostrar as controvérsias do corpo e da alma que constituem, na sua essência, o ser humano. A força do destino que parecia separar Egéria de Prisciliano transformou-se num íman que o levou à conversão e ao amor. Todos os ingredientes preparados para um belo casamento, mas a narrativa encaminhou-os, sob a égide do destino, para outra missão: a de evangelização

“O sonho de Prisciliano não era o estatuto de bispado. Antes o laicado carismático, desprovido dos deveres e obrigações de um bispo. Ser um homem livre para pensar, ensinar, evangelizar, mobilizar. O que desejava mesmo era que os bispos e clérigos vivessem a espiritualidade priscilianista, aderissem à sua forma de vida simples e desprovida dos interesses mundanos, que ele anunciava com tanto vigor.“ (p. 274)

Aproximava-se um novo tempo – “A nova eternidade que o sonho lhe vislumbrara era, assim, uma reta infinita e ilimitada, pois que se definisse um ponto sobre ela e começasse a percorrê-la numa das direções poderia caminhar eternamente sem nunca voltar a encontrar esse ponto.” (p. 186) – e a perspetiva dos sonhos sonhados dera-lhe em troca a única certeza de ser um “buscador”. Egéria, lutadora acérrima e amante incondicional, interrogava-se por vezes.

“Às vezes, penso em nós… casados, com filhos, uma família cristã…como um dia sonhei. Espero que me entendas…

Prisciliano sorriu e apertou-a contra si.

– Claro que entendo. Sabes que esse era o nosso desígnio até descobrir a virtude na entrega total e sem reservas ao Uno, em busca da perfeição…” (p. 304).

 Este excerto revela-nos ainda o caminho a percorrer por cada um de nós e, para isso, a autognose é essencial, assim como o despojamento dos bens materiais, sempre simbolizado no mendigo “Cristo” que se fazia acompanhar do seu cão “Diógenes” – surge, então, a vertente didática do romance, a par das várias intencionalidades já evocadas. O narrador omnisciente consegue mostrar as diversas transformações das personagens e os interesses manipuladores que determinam as mudanças, nunca perdendo de vista a capacidade construtora imaginária da narrativa e os polos da espacialidade que a configuram. Os diferentes dilemas que constroem a tessitura narrativa reforçam o ato comunicacional entre destinador e destinatário, funcionando como sedução perante este.

Prisciliano, o eleito que via as rosas azuis e tinha o sortilégio de possuir uma “pedrinha de quartzo cor-de-rosa”, foi ungido por uma mulher e descansou para sempre junto da mãe (Priscila) e dos seus companheiros, em Aseconia (Santiago de Compostela). Egéria, no momento da despedida, recuperara, pela mão do mendigo, a “pedrinha de quartzo” a sua alma gémea que ficaria com ela ainda presa à terra até ao momento do reencontro final. A emoção dialógica provinda das palavras de Egéria: “- O que eu sofri por não encontrá-la… agora tenho de volta a minha alma gémea – concluiu, em prantos.” (p. 448) gera momentos de comoção no leitor, enquanto o prendem ao fio da obra até ao final. O narrador apostou neste jogo ilocutório e na teia narrativa, com objetivos determinados: cativar o leitor e “ensinar” alguns fundamentos históricos e preceitos religiosos que se difundiram através dos tempos, e, por vezes, hoje estão esquecidos! Assim, O Segredo de Compostela permite uma reinterpretação da História a partir do presente e a cosmovisão atual gera um novo olhar sobre o mundo, seus rituais e mistérios.

A biografia de Prisciliano – o condenado em vão e acusado de magia negra – é o símbolo da vida de todos os mártires sacrificados pela sua ideologia e religião; este homem ”mau” (na acusação de Ithacio Claro) tornou-se um santo e o seu caminho foi uma catarse que o elevou ao misticismo e ascetismo religioso, renunciando, assim, ao amor terreno com Egéria.

 O autor irrompeu através do tempo, focado na espacialidade de Compostela, e conseguiu despoletar novos sentidos sobre a “peregrinação”, os símbolos (vieira, a cabaça e o bordão) e a crença religiosa, para (des)ocultar “o segredo”. Uma obra plena de miuçalhas e simultaneamente tão límpida e impetuosa que não deixa o leitor arredar pé!

No final, cada leitor será também um “peregrino” seguindo a Via Láctea… da vida.

                                                                Júlia Serra, professora aposentada da Escola Básica e Secundária D. Dinis


[1] O sublinhado é do autor da crítica.

[2] Dicionário dos Símbolos, Jean Chevalier, p. 418, 1994, ed. Teorema.