Autor: Barroso da Fonte

Obra: Crónicas da “Crónica Feminina” (1969/73)

O título Crónicas da “Crónica Feminina” (1969/73) pode surpreender a geração mais nova, mas reativa a memória dos mais velhos, para os tempos em que liam a referida crónica. Como o autor do Prefácio e editor, João Pedro Miranda, explica, “A Crónica Feminina foi uma revista que marcou profundamente os anos 60 do século XX em Portugal. Era a revista semanal de maior audiência, com tiragens na ordem das centenas de milhares (…) Foi editada pela Agência Portuguesa de Revistas, o primeiro número da Crónica Feminina saiu a 29 de novembro de 1956, sob a direção de Milai Bensabat. Tinha 112 páginas em formato de bolso (16,7x 12 cm) e saía todas as quintas-feiras. A assinatura custava 2$00 no continente e 3$00 no Ultramar.” (p.3).

Ora acontece que o editor, ao recolher elementos para a publicação de um livro com as crónicas jornalísticas que Barroso da Fonte publicou durante o tempo em que esteve na guerra do Ultramar, encontrou cerca de meia centena de exemplares da Crónica Feminina publicados entre 1969 e 1973, que continham uma rubrica do mesmo autor que se intitulava “Usos e costumes transmontanos”. São essas páginas, juntamente com uma entrevista de 1985, dada pelo autor à Crónica Feminina, que constituem o livro em análise. Acrescenta o prefaciador: “O tema dessas crónicas da Crónica Feminina foi o embrião para um livro que apareceu em 1972 e que marcou uma nova época, tirando aquela região do obscurantismo mediático: falamos dos Usos e Costumes de Barroso, que Barroso da Fonte publicou em parceria com Alberto Machado e o Padre Fontes, sendo prefaciado pelo Prof. Doutor Santos Júnior” (p.4). Através deste segmento textual, pode deduzir-se o contributo destas crónicas para a divulgação e conhecimento dos “segredos” e costumes de Trás-os-Montes; uma região muito peculiar, mas um pouco misteriosa comparada com outras que constituem a cartografia do país. Atualmente, são os meios de comunicação e de informação que desempenham esse papel, dando a conhecer o que de singular existe em cada região; no entanto, estas crónicas entram mais no coração dos lugares e dos sítios, contando as suas estórias com História, revelando as crenças, os falares, os costumes e a fé de quem vive/viveu a miséria e a grandeza do “Reino Maravilhoso”, como lhe chamou Miguel Torga.

Para quem não vive lá e não está entranhado no espírito transmontano, cada capítulo desta crónica é como um despertar para um mundo novo, convidando o leitor a deslumbrar-se perante as revelações mais fantásticas: caso da explicação da Barragem de Pisões, ligada ao Pisoeiro; as chegas; as rezas e crendices; o responso; a cura do farfalho; a cura do engaranho; a maneira de curar a espinhela; os adágios típicos; o valor da Extensão Agrícola Familiar; as mulheres e o trabalho – estes e muitos outros temas relembram o passado e permitem um confronto com o presente. Sendo uma região do interior, muitos foram os habitantes que emigraram e se deslocaram para as cidades e litoral à procura de melhores condições e de sobrevivência, deixando as aldeias mais despovoadas e mais pobres, relegando a maior parte da lida e administração da casa à mulher, impelindo-a para o desempenho de novos papéis e encargos. Assim, as crónicas assinalam algumas mulheres como exemplo: a cauteleira Maria da Conceição, as mulheres “tratoristas”, as professoras regentes aposentadas que foram convidadas para ministrar o ensino, a mulher como escritora, caso de Maria Ondina e tantas outras alusões à mulher na sociedade e ao reconhecimento das desigualdades existentes – “Muito pode ela (mulher) fazer na substituição do homem, mesmo em funções que, à primeira vista, parecem incompatíveis com o sexo. Abrir-lhes as portas na escala de valores sociais e humanos é dever de todos os organismos oficiais e particulares.” (p.59)

Além disso, o livro foca ainda: o valor das termas e do turismo para a região – “O médico flaviense, seu diretor clínico e promotor da lei, conseguiu, para a urbe Flaviense, um melhoramento que vem integrar-se num conjunto termal de eleição: Vidago, Pedras Salgadas e Carvalhelhos, num raio de cerca de 15 quilómetros e que formam o já conhecido paraíso termal”.(p.91)”; os costumes e a etnografia relativa ao Natal, o Cancioneiro transmontano; a arqueologia da região e as reminiscências dos achados e muitas outras alusões às riquezas transmontanas. Pertencem a este rol: alguns monumentos – exemplo do Convento das Júnias de Pitões; os templos de Viade e de S. Vicente de Chã e barragens – caso do Alto Rabagão.

De salientar que a questão do analfabetismo e da formação cultural se traduz numa preocupação constante do autor como base de desenvolvimento do futuro das pessoas e da região, motivo pelo qual se regista uma insistência nesta temática e na procura de exemplos para incentivo aos estudos, nos diversos ramos e graus de ensino. Estas páginas escritas por Barroso da Fonte e publicadas na “Crónica Feminina de certeza que deram muito fruto, ajudando a abrir mentalidades aos mais velhos, incentivando os novos a estudar e a reconhecer o valor de uma formação cultural. São páginas do passado cheias de atualidade e de humanismo – o belo testamento de 1910, de Bonifácio da Silva Teixeira, é um testemunho de altruísmo e sabedoria (p.93)

Esta revisão da “Crónica Feminina” é, sem dúvida, um tempo passado a confrontar-se com o presente e a lançar alguns alertas para o caminho enveredado pela imprensa atual; por outro lado, permite avaliar, à distância, o impacto destas crónicas naquela época, a nível do desenvolvimento regional, do país, Ultramar e no estrangeiro.

Em relação ao autor, Barroso da Fonte, as provas do seu valor já foram prestadas há muito e, agora, aparecem numa outra variação – escritor da década de 70 e o da atualidade – uma distância temporal de cerca de 50 anos e a mesma lucidez, o mesmo jeito de escrita e gosto pelos sabores do lugar, traduzindo uma espécie de sinfonia musical que perdurará para todo o sempre!

A terminar, parabéns ao autor e um pensamento de Vergílio Ferreira: «Não deixes que te abandone o milagre de escrever. Não deixes que a miséria do teu corpo escureça com a sua sombra a pequena luz da tua escrita.»

                                                       Júlia Serra, professora aposentada da Escola Básica e Secundária D. Dinis