João de Deus Rodrigues lembra, nesta obra, as gentes de Talhas e de Morais da sua geração que se dedicaram ao labor da terra, utilizando os burros, para sustentarem a família. Num sentido mais amplo, é uma homenagem a toda a região transmontana que tem lutado para evitar a extinção deste tão serviçal companheiro. Aliás, o autor escreveu: “Daqui, resultou a necessidade que senti de escrever algo sobre os burros, como sendo, também, uma obrigação minha fazer alguma coisa, embora de pouca valia, para evitar que tal (extinção[1]) venha a suceder-lhes. E, por arrastamento, aos seus híbridos. Depois, aproveitar o ensejo de mostrar o meu reconhecimento à burra Sópa, e a todos os seus iguais, pelo muito que fizeram pela humanidade, ao longo dos séculos, depois de terem sido domesticados.” (p.18).

O autor do Prefácio, José Ribeirinha Diniz da Costa, coloca uma interrogação e adianta uma resposta explicativa: “Como entender uma ligação tão íntima a este animal e esta obstinação pela alteração dos epítetos que rotulam “o burro”, que tão úteis e prestimosos trabalhos “prestou” ao ser humano? Tudo reside, se apoia e sustenta na ligação profunda do autor à sua terra, às gentes, aos costumes e tradições, à simplicidade dos modos de vida rural e, por fim, aos animais indissociáveis dessas formas de viver no campo.” Com efeito, as memórias do lugar deslizaram no tempo e tornaram-se mais vivas face à mundividência de um presente citadino que se confronta no drama do ser criança/adulto. A categoria temporal é determinante para a sensibilidade/interioridade e a escrita, aqui, desempenha o papel de resgate de memórias de um espaço registado na infância e que o cronómetro e a distanciação reforçaram, gerando novos sentimentos e visões. Entre o bulício da cidade e da globalização, a rememoração do passado assume um caráter de urgência, pondo à prova o valor das raízes na existência urbana. Assim, o ser não fica acomodado e começa a desenterrar a infância com mais afinco e didatismo: há pensamentos interventivos, réstias de visibilidade e dores que fazem poetar, bem marcadas na prosa e nos versos que compõem este livro.

João Rodrigues apresenta-nos um tratado sobre os burros, assinalando bem a diferença entre o comportamento e a fisionomia do macho e da fêmea; compara o burro ao cavalo e, embora reconhecendo a elegância deste último, inclina-se pela sua “amiga Sópa”, imagem retida desde a infância. Nas suas explanações sobre estes animais, aproveita para introduzir algumas recordações da avó Merência e alguns ditos e provérbios ligados ao burro. Encontramos nesta obra muita matéria sobre este animal, alguma com base mais científica, outra de índole popular; no entanto, o próprio autor apela para que se faça um estudo mais aprofundado sobre o gado asinino, como em tempos alguns estudiosos já o fizeram – citando o veterinário Ruy de Andrade – ao apresentar a distribuição de asnos e muares em Portugal e no mundo, no início do século vinte (ver pp. 59-60). Desde a origem dos burros à sua domesticação e purificação da raça, tudo se pode encontrar neste livro, não esquecendo os provérbios e o seu desempenho a nível mitológico e simbólico. Para uma visão mais precisa do tão sábio animal, há ainda as fotos a completar o catálogo. O certo é que João de Deus afirma que o burro mais especial é o do Egito:“ (…) pelas suas características, e por ser o mais esperto, fino e bem feito, de todos os burros… Tinham, apenas, um metro e quarenta de altura, e os egípcios tosquiavam-nos e ornavam-nos com arreios de luxo, desde os tempos dos Faraós” (p.53) Preocupado com a extinção da raça, o autor louva o papel da UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) e das associações como a AEPGA (Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino) desempenhado na defesa do burro.

Reconhece ainda que, à semelhança do que se faz na ilha de Chipre: “Há como já disse, um grupo de jovens, turcos e gregos, que estão empenhados em salvar “o seu burro.”. Para isso, uniram-se com essa finalidade, quando tiveram conhecimento de que andavam a assassiná-los, nessa zona da ilha.” (p.95), Portugal deveria investir mais para salvar a espécie, embora haja sinais de uma maior sensibilização para o problema.

Em jeito de gratidão, o autor escreveu: “Obrigado burro zurrador, /Pelos teus zurros matinais. /E por seres o melhor cantador, A imitar os burros, teus pais”. Uma excelente quadra que distingue o belíssimo zurrar do burro que em nada se assemelha ao relinchar do cavalo! Mas o burro deve sentir-se também ele agradecido por este aturado trabalho que o autor começou há doze anos: “Quando há uma dúzia de anos, comecei a reunir elementos para este livro, os estudos e as estatísticas sobre o Gado Asinino, em Portugal, eram escassos.” (p.58), o que revela o sentimento profundo e a capacidade de persistência traduzidos nas pesquisas e em outros meios encontrados para sustentar o discurso.

A terminar, uma nota sobre a singeleza da escrita misturada com a sapiência do povo, onde sobressaem termos e ditados populares, permitindo que a condição do homem de cultura dê lugar à do autor.

Se esta abnegação pelo animal tivesse sempre existido, certamente que a obra de José Régio “Príncipe com Orelhas de Burro” não teria causado tantos desgostos na corte e o dom da fada poderia ter sido interpretado como um “encanto” e não como um defeito…

Afinal, os burros são muito espertos. É uma questão de nome.

                                                              Júlia Serra, professora aposentada da Escola Básica e Secundária D. Dinis


[1] O parêntese não consta no texto. É uma nota explicativa.