Um livro dedicado a um fruto – Romanceiro da Castanha – é, no mínimo, uma obra singular, pois o romanceiro é, na cultura portuguesa, formado por conjuntos de breves poemas tradicionais ou romances de temáticas variadas. Apesar de aturados estudos sobre este género textual, foi Almeida Garrett quem se distinguiu e lançou os alicerces para o romanceiro, com raízes populares e de tradição oral. António Vermelho do Corral, prefaciador deste livro, escreveu: “Vários são os romanceiros na cultura portuguesa e apenas valeria falar em Almeida Garrett. Mas este tem a particularidade de ser único, que ninguém ousou ainda tratar, apesar do valimento, que desde os primórdios, quer o fruto, quer a árvore, nos oferecem”. (p.14).

 Aqui, trata-se de uma obra que envolveu muita pesquisa e empenho da parte do autor, como ele próprio escreveu na Nota Introdutória “… foi um trabalho para quase dois anos, com muita pesquisa documental e trabalho de campo” (p.15). É evidente que o saber acumulado e a experiência advinda das obras já publicadas, sobretudo “A Castanha Saberes e Sabores”, devem ter funcionado como motivações e inquietações que impeliram para este enorme desafio: “Quando senti um grande desassossego interior para dar corpo a este romanceiro temático, a minha convicção foi ainda mais otimista.” (p.15). Portanto, o próprio autor confessa a necessidade de responder a um apelo interior para acrescentar não só o seu saber sobre este fruto tão nobre e típico da sua terra natal, como também quis recolher mais sabedoria na cartografia geográfica de todo o país. Esta colaboração de outros assinala a verdadeira função da escrita, mostrando que, através da palavra, se grava para a posteridade, e por ela também se rememora e recria um passado que foi pertença de um povo. Assim, emerge deste livro uma comunicação criadora de alteridade e uma outra comunicabilidade renascente preparada pelo engenho do próprio autor que é este verdadeiro tratado da castanha.

Na Nota Introdutória, Jorge Lage teve o cuidado de explicar o valor da castanha ao longo do tempo, destacando o que ela representou /representa na economia de uma região e no orçamento de um lar, assim como referiu as dificuldades sentidas para organizar este livro, constituído por temáticas que estão meticulosamente alinhadas no índice, e ainda teve o ensejo de explicar ao leitor as várias interpretações e termos pendentes do acastanhado fruto – aspetos extremamente valiosos para a compreensão cabal de algumas estrofes. Se, no Prefácio, António Corral se debruçou mais sobre a história do autor, a Nota Introdutória centrou-se na história da castanha e do castanheiro – duas vertentes que, conjugadas, funcionam como o limiar para uma leitura apetecível do romanceiro, já que a retenção de toda a poesia é uma tarefa praticamente impossível para o exercício da memória – mas graças ao autor, a castanha é hoje uma iguaria que qualquer restaurante estrelado faz questão de servir em vários momentos e formatos diferentes numa refeição. O certo é que estes dois capítulos – Prefácio e Nota Introdutória – permitem ao leitor entrar com mais segurança na obra e com uma vontade antecipada de degustar o fruto; portanto, é o umbral de um jogo de passagem onde o leitor está incluído para descobrir as intencionalidades comunicativas da palavra e da escrita. Neste caso concreto, e na senda dos que defendem a utilidade do posfácio, há uma vantagem anunciada no final da Nota Introdutória pelo autor: “O meu endereço eletrónico aparece na ficha técnica para os leitores colocarem dúvidas, sugestões e críticas ou que de alguma forma pretendam estabelecer diálogo com o autor. Nunca se retraiam de o fazer” (p.19). Deste modo, está aberta a porta para a tal comunicabilidade acima referida e consequente da leitura – uma espécie de posfácio aberto e dialogal, sem limites fronteiriços ou constrangimentos temporais.

Considerando a obra em si, salienta-se o gosto e o talento do autor pela organização do livro, gestão e recolha dos temas, sempre numa linha de lirismo popular, mas mantendo um certo conservadorismo próprio de um romanceiro que obedece à mapeação do espaço e à identidade dos lugares. Constata-se que está subjacente um gosto pelo “peneirar” dos versos e uma preocupação de preservar a pureza da língua e dos falares: “Estava a assar castanhas, /Tinha o lume a arder/Queimei o bestido, /Mas não foi por qu’rer.” (p.46, est.48) e “Estava a assar castanhas, /Tinha o lume a arder, /Queimou-se o vestido/O que hei de eu fazer?” (p.46, est.49). Note-se que o autor transcreveu as duas formas de pronunciar /vestido/, (b) e (v), que traduzem o falar do povo, transformando a consoante labiodental /v/ em bilabial /b/; o mesmo acontece no uso de “tamém” (substituto de “também”): ”Adeus, fraga da Peneda,/Adeus, carvalhos, tamém,/Adeus, castanheiros verdes,/Até ao ano que vem!” (p.95, est.150) ou “C’mós” (substitui “como os”) em: “Adeus povo de São João/Rodeado de castanheiros/Quero-te tão do coração, / C’mós amores primeiros.” (p.96, est.155) ou ainda o uso de “azête” (para significar “azeite”) em que o fechamento da vogal assinala a cartografia do lugar: “Do Algarve vem a passa, / De Moura, o bom azête, /Do Alentejo, o bom trigo/E castanha, de Alegrete /” (p.98, est.163). Acresce referir a riqueza vocabular e típica de Trás-os-Montes ligada ao processo de apanha e conservação da castanha: caniçada, ciranda das castanhas, repisa, cascabulho, gradura e muitos outros termos, para não nos fixarmos apenas na variedade da castanha seca: castanhas piladas, castanhas picadas, castanhas piadas, castanhas caniçadas, castanhas pisadas, castanhas repisadas, castanhas joeiradas e castanhas cirandadas (p.23).

Do ponto de vista temático há também muito para tratar, pois a castanha está ligada a festas e romarias, tradições populares, datas festivas, às estações do ano, festas dos Santos, ao Amor e ao namoro, ao sexo, ao erotismo, à Fé cristã, à crítica social, às cantigas, adivinhas e até a jogos tradicionais. Assim, o autor elencou as várias temáticas e, quando pressentia que era necessário explicitar algum capítulo/tema, alternava-o com uma breve exposição ou com uma imagem sugestiva que, para além de embelezar a obra, quebrava o ritmo e revigorava a leitura. Para exemplificar algumas destas temáticas, atente-se nos versos: ”De castanha em castanha,/De caniço em caniço,/ De tudo o que mais gosto/É de abrir o ouriço”(p.70, est.100); ”Menina qu’está à janela,/Sem licença de seu pai,/ Tenha conta no ouriço,/ Que a castanha já lá vai”(p.77, est.120, relativa ao sexo e ao ouriço); outro exemplo: ”A castanha no ouriço,/Está o tempo que ela quer./É como o rapaz solteiro,/Enquanto não tem mulher.”(p.70, est.101). Muitos outros exemplos e associações poderiam ser citados, pois há um manancial de versos portadores de história e de estórias que só lendo a obra se descobre o tesouro aqui fechado.

Deste modo, e sob a égide do sonho, nasceu esta maravilhosa enciclopédia da castanha e do castanheiro que serviu para apaziguar a inquietude do autor e ensinar aos presentes e aos vindouros a valia da “castanhícola mágica”, ao passar de alimento e sobrevivência do povo para as mesas afidalgadas e palácios reais. Nesta perspetiva, a ação e trabalho de Jorge Lage muito contribuiu /contribui para a expansão e valorização deste fruto e da própria região. O homem sem sonhos e sem loucura é um ser conformado e triste, portanto, estes desafios são necessários para mover o universo. Fernando Pessoa, em Mensagem, escreveu ” Triste de quem vive em casa,/ Contente com o seu lar,/ Sem que um sonho, no erguer de asa,/ Faça até mais rubra a brasa/ Da lareira a abandonar.” e António Gedeão referiu que o mundo só avançava com o sonho: ”Eles não sabem nem sonham/que o sonho comanda a vida/ e que sempre que o homem sonha/ o mundo pula e avança…”.

 A terminar a minha leitura da obra, uma referência à capa e à feliz ideia de Romão Figueiredo ao colocar o ouriço já aberto com as respetivas castanhas, fazendo sobressair o fruto apetitoso da sua carapaça, sugerindo desejo de libertação e, simultaneamente, de despedida do seu abrigo. O cromático outonal estampado na cor assinala a hora do amadurecimento e de partida para os outros; a mesma sorte que assiste quando alguém se dedica à construção de um projeto e, terminado, o entrega a outro – a nós, os leitores.

Foi esta a bela caminhada de Jorge Lage. Parabéns!

Júlia Serra, professora aposentada da Escola Básica e Secundária D. Dinis