Hoje é mais um dia de vida entre paredes. É um dia de sol lá fora, porque, a medo, não queremos expor-nos, nem sorrir para ele. Hoje o sol entra pelas janelas, se não as fecharmos.

 Vamos abrir essas janelas, todos, porque, como dizia José Luís Peixoto, “o medo é muitas vezes o muro que impede as pessoas de fazerem uma série de coisas”. Dentro de casa há muito para inventar, arrumar, trabalhar e pensar, o que é preciso é iniciar a “aprendizagem do desaprender”, seguindo a metafísica de Caeiro; mas o poeta adverte “Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!)/Isso exige um estudo profundo”. Adaptarmo-nos a um novo paradigma de vida custa; libertarmo-nos dos preconceitos e da vida social pode interpretar-se  como um corte da liberdade individual, mas o certo é que não conseguiremos vencer esse “vírus mau” se não fizermos mudanças radicais nas rotinas. Tudo isto gera angústia… aqui, as palavras de Sartre ajudam a compreender melhor: ”É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade, ou, se se prefere, a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser; é na angústia que a liberdade está em seu ser, colocando-se a si mesmo em questão”. Portanto, a nossa liberdade tem de ser repensada, para que não colida com a liberdade do Outro e, é neste sentido, que este tempo nos convida a pensar, em casa.

As ruas estão quase desertas, os cafés estão fechados, as cadeiras amontoadas às portas e não há gente a fazer prognósticos do jogo. Os homens (mais eles) perderam o pio. Como gerir as conversas caladas? Felizmente, as tecnologias ajudam a vencer através da escrita e da imagem. É tempo de aprimorar os nossos textos, de refletir sobre a escolha do vocabulário a usar, de procurar novos sinónimos, de ler e compreender histórias de vida e romances de grande fôlego. É importante ver nos canais generalistas os locutores a incitar à leitura, a tranquilizar os espectadores, citando autores de renome, sensibilizando-nos para o momento que passamos – juntos, venceremos!

Uma coisa é certa, aquela violência doméstica arrepiante, que nos atordoava, parece um pouco esquecida ou, então, os homens começaram a pensar antes de agir e têm medo – uma vez mais o problema do medo a disciplinar a vida – para que os outros (as mulheres) possam viver mais em paz. Ou será que o convívio doméstico gera mais diálogo e entendimento?

Reflexões que ficam para mostrar que Portugal, e parafraseando Alexandre O’Neill, “Portugal é muito mais do que três sílabas”, e todos, mesmo todos, temos que pensar no Portugal futuro de Ruy Belo: “O Portugal futuro é um país/aonde o puro pássaro é possível”.

Júlia Serra (professora aposentada da Escola Básica e Secundária D. Dinis)